[Dolcita e Crystal Silence]
O universo dos lúpulos experimentais vive de códigos numéricos e testes em escala piloto. Mas, em agosto de 2025, um desses códigos ganhou nome próprio: o HBC-1019 passou a se chamar oficialmente Dolcita. No mesmo dia, a Koala San Brew colocou no mercado o segundo lote da Crystal Silence, uma New England Double IPA elaborada exclusivamente com esse lúpulo. Um encontro simbólico unindo o ápice de um programa de melhoramento genético com desenvolvimento artístico em cerveja.
Do código ao nome: a história genética do Dolcita
O Dolcita nasceu dentro do programa de melhoramento genético da Hop Breeding Company (HBC – realizado em conjunto com John I. Haas e Yakima Chief Ranches).
Resultado de um cruzamento em 2016 entre duas linhagens experimentais da HBC, cuidadosamente selecionadas por suas potencialidades sensoriais e agronômicas, planejado para unir alta resistência agronômica a uma expressividade sensorial inédita.
Embora os parentais específicos não tenham sido revelados publicamente, sabe-se que vinham de linhagens com perfis frutados marcantes e resiliência a estresses de campo — arsenal genético que resultou num cultivar com complexidade aromática.
Desde as primeiras gerações, pesquisadores perceberam que o HBC-1019 trazia uma característica incomum: pêssego, frutas tropicais, cítricos, textura cremosa singulares, aromas de frutas de caroço caramelizadas (pêssego, damasco), aliados a uma textura sensorial cremosa, algo raro em lúpulos.
“Em meus 25 anos de melhoramento, verdadeiros vencedores são raros — mas o Dolcita foi inconfundível desde o início.” • Michael Ferguson, Diretor de Melhoramento Genético da John I. Haas
O Dolcita também se destaca por seus excelentes atributos agronômicos — renove alto, colheita precoce, resistência a pragas e boa estabilidade pós-colheita — qualidades que o tornaram um dos lançamentos mais rápidos da HBC, reduzindo significativamente os tempos tradicionais de experimentação de 10–12 anos
Depois de mais de uma década de cruzamentos, testes agronômicos em diferentes regiões e avaliações sensoriais em cervejas piloto, o HBC-1019 conquistou espaço definitivo. Seu batismo como Dolcita não foi por acaso: o nome traduz o caráter doce e aromático, que remete a sobremesas tropicais e drinks frutados, sem abrir mão de intensidade e frescor cítrico.
Crystal Silence: explorando um single hop multidimensional
Lançada em janeiro de 2023 como a primeira cerveja brasileira feita com HBC-1019, a Crystal Silence mostrou o potencial dessa variedade.
Desde seu lançamento, tem sido um estudo sensorial notável — não apenas por ser single hop com Dolcita, mas pela complexidade de suas camadas e sua caractéristica cremosa única, e como a levedura proprietária KSB‑01 contribui ao perfil final. Essa cepa traz uma textura delicadamente cremosa, realça o dulçor frutado e adiciona um toque sutil de baunilha que casa perfeitamente com o lúpulo.
No copo, o resultado surpreende: pêssego em calda, abacaxi e banana caramelizados, coco, açúcar mascavo, notas de baunilha e um final cítrico de tangerina e laranja. A sensação cremosa no palato é tão marcante que já foi até descrita como “morder uma sobremesa tropical em estado líquido”.
Resultado impressionante para um lúpulo solo
É raro observar um lúpulo solo sustentar tão bem uma receita complexa — mas Crystal Silence faz exatamente isso. A combinação de Dolcita com KSB‑01 entrega uma experiência sensorial única:
• Textura rica e cremosa, amplificada pelo toque baunilhado sutil da levedura.
• Camadas aromáticas profundas: coco, baunilha, creme, pêssego caramelizado, abacaxi e cítricos — ainda assim, equilibradas e não cansativas.
• Esse é um caso raro de sinergia entre lúpulo e fermento, onde cada elemento realça o outro e evita necessidade de blends adicionais.
Dolcita: da agronomia à sensorialidade
Do ponto de vista agronômico, o Dolcita é considerado um salto de qualidade para produtores. Ele apresenta alta resistência a pragas e doenças, colheita precoce, elevada produtividade e estabilidade entre safras. Isso garante não apenas rentabilidade para os agricultores, mas também confiabilidade para cervejarias que buscam consistência em seus rótulos.
A Crystal Silence não é apenas um veículo de lançamento; ela se consolidou como um estudo de caso sobre o Dolcita em estado puro. É impressionante como um único lúpulo consegue sustentar sozinho uma Double IPA complexa, multidimensional e memorável. O perfil é inconfundível: camadas de coco, baunilha, creme, pêssego maduro e caramelizado, abacaxi e laranja fresca se entrelaçam em uma experiência sensorial quase paradoxal — ao mesmo tempo densa e refrescante.
Esse caráter peculiar mostra o quanto a pesquisa genética pode moldar não apenas aromas, mas também textura e percepção tátil em uma cerveja. O Dolcita continua a evolução de novas gerações de lúpulos capazes de entregar profundidade e completude de forma single hop, algo que até pouco tempo parecia impossível!
Conclusão:
A Crystal Silence como um single hop tecnicamente completo marcam um ponto de inflexão na indústria. Genética de ponta e design de fermentação, resultando em uma experiências incrível, peculiar, exótica e única, texturas densas, aromáticas e surpreendentes, camadas de complexidade sem abrir mão de coerência e frescor. O batismo oficial do Dolcita e a continuidade da produção da Crystal Silence representam um momento de convergência: ciência agrícola e criatividade cervejeira trabalhando em inteligência. Para quem acompanha a evolução do lúpulo moderno, o Dolcita e Crystal Silence é mais do que um novo nome, é um marco na forma como percebemos o papel desse ingrediente fundamental no futuro da cerveja.
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